HQ: O imaginário do Muro de Berlim

Quadrinista Flix reúne 30 histórias curtas sobre os anos de divisão da Alemanha

O imaginário do Muro de Berlim

Flix: história autobiográfica deu origem ao livro “Quando lá tinha o muro…”, lançado no fim de 2011 pela Tinta Negra.

RIO – Ulrich lamenta que, depois da queda do Muro de Berlim, em 1989, os lados oriental e ocidental não possam mais ser distinguidos pelo cheiro. Moritz imaginava o Leste da Alemanha como um buraco negro, repleto de fábricas e robôs, e se decepcionou ao fazer uma excursão com a escola em 1990. Axel, que via o amigo receber pacotes do Oeste “com coisas incrivelmente coloridas, de outro planeta”, hoje guarda na lembrança uma Berlim Oriental que já não existe mais.Ulrich, Moritz e Axel são amigos de Flix, que na infância imaginava como poderia atravessar a fronteira das duas Alemanhas escondendo um tanque de guerra de brinquedo sem ser preso. Em 2009, Flix — nome com que Felix Görmann assina suas criações — ouviu seus amigos e transformou seus relatos em quadrinhos. Narradas por cada um deles, as histórias falam de fantasias sobre o outro lado — fosse ele o Leste ou o Oeste — e seus choques com a realidade. No fim de 2011, o livro foi publicado pela editora Tinta Negra como “Quando lá tinha o muro…”, com 30 episódios curtos e melancólicos.

— Eu e meus amigos éramos pequenos quando o muro caiu, por isso o livro sobre o olhar de criança e como ele muda quando você cresce e o mundo se transforma. Quase todas as histórias são verdadeiras, e há um tom meio amargo, porque elas falam de algo que se foi e não pode voltar, mas que está muito presente na vida das pessoas — diz Flix, por telefone, de Berlim.
Em 1989, o quadrinista tinha 13 anos e vivia na Alemanha Ocidental. Hoje, aos 35, ele mora há uma década a poucas ruas de um dos pedaços do muro preservados em Berlim, no que antes era o Leste e hoje é uma das áreas mais procuradas pelos turistas, abarrotada de cafés, bares e lojas inimagináveis por ali há 20 anos. Com o muro concretamente em seu cotidiano, e percebendo como ele se impõe na conversa das pessoas que passam por ali — sejam elas alemãs ou estrangeiras —, Flix escolheu o tema para uma série sobre a vida nas cidades do jornal berlinense “Tagesspiegel”. Publicou sua própria história (leia nesta página), que foi o ponto de partida do livro.
— Acabei conhecendo melhor meus amigos, e eles me contaram histórias que eu nunca tinha ouvido antes, uma com um ponto de vista da Alemanha — diz ele, que vê transformações radicais em Berlim. — É uma cidade em transição, que passou por grandes transformações, e hoje vemos edifícios onde antes só havia grandes vazios. Mas, por outro lado, Berlim é muito grande, com diversas áreas onde não há tantos turistas, e ainda é uma das cidades mais baratas da Europa.
O tom autobiográfico das criações de Flix começou na faculdade de Comunicação Visual, quando ele apresentou como trabalho de fim de curso “Held” (“Herói”), uma autobiografia em quadrinhos — parte real, parte inventada, já que a história vai do nascimento à morte, quando o quadrinista teria 88 anos. O trabalho em formato pouco usual foi publicado em livro em 2003 e ganhou diversos prêmios na Alemanha, impulsionando as publicações seguintes: “Sag $” (“Diga algo”), uma história de amor entre Flix e Sophie, e”Mädchen” (“Meninas”).
Com a progressiva repercussão, Flix passou a colaborar com importantes jornais alemães, criando quadrinhos e ilustrações, e diz ter expandido seu olhar: de si mesmo para $amigos, de seus amigos para a sociedade e a História. Flix já lançou livros como uma paródia de “Fausto”, de Goethe — em negociação para virar um filme de animação —, e agora trabalha numa versão em quadrinhos para “Dom Quixote” — La Mancha é agora Bran$, e o personagem de Miguel de Cervantes é um homem contemporâneo.

Mas o quadrinista não mudou tanto assim. Seja o herói Dom Quixote ou o próprio Flix, seus livros são sobre trajetórias de vida e os questionamentos do cotidiano. Uma de suas prin$inspirações para começar a fazer quadrinhos foi Ralf König, um dos mais importantes da Alemanha, conhecido por suas histórias de temática homossexual. Como diz Flix, “não são histórias gays, mas sobre pessoas que são gays”. E naqueles relatos — que ultrapassaram um inicial preconceito do público heterossexual, nos anos 1980, e já passaram das cinco millhões de cópias pelo mundo —, Flix viu que não precisava ser um desenhista de outro mundo para fazer o que faz.
— König é um grande contador de histórias e tem um desenho simples — diz Flix, que hoje admira o experimentalismo dos cartunistas franceses do coletivo L’association. — Não sou um artista tão bom. Quadrinhos como “Tintim” e “Asterix” são tão bem desenhados… Não queria praticar anos e anos para desenhar tão bem, mas contar histórias.

fonte: o globo

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *